
Durante o longo caminho percorrido por mim, quase trinta anos, no entendimento das artes marciais uma questão me acompanhou durante muitos anos, causando muitas vezes questionamentos e incerteza à cerca de meu rumo e objetivos. Jutsu ou Dô, qual o “caminho”?
Primeiramente gostaria de esclarecer o significado literário dessas duas palavras da língua japonesa.
JUTSU: Arte; Técnica.
DÔ: Caminho; Via, Postura.
Desta maneira parece fácil dizer qual é o que, mas será que você saberia dizer qual caminho o “Dô” tomou?
Provavelmente o amigo leitor já ouviu falar em JU-DÔ e JU-JUTSU ou Judô e Jiu-jitsu como são mais conhecidas essas duas artes que são muito difundidas no nosso país onde temos atletas medalhistas olímpicos e campeões mundiais.
Para que possamos compreender bem façamos uma breve incursão histórica pelo Japão feudal mais precisamente pelos anos de 1603 quando foi instituída a ditadura militar conhecida como Xogunato Tokugawa até 1868 quando teve início a Restauração Meiji, uma série de eventos que levou a uma mudança na estrutura político social do Japão, a chamada pacificação, O último samurai, Tom Cruise, lembra?
Pois bem, durante estes séculos o Japão foi assolado com guerras civis entre os feudos, nessa época ocorreu o surgimento do Bujutsu (武術), que era um conjunto de técnicas ou artes marciais, que somente podiam ser treinadas pelos Bushi (samurais), visando seu uso em batalha. Artes como o Kenjutsu (técnica da espada), Kyujutsu (técnica do arco) e o Ju-Jutsu (arte suave), eram treinadas apenas para tornarem-se eficientes e letais.
Porém o árduo treinamento à busca da perfeição técnica remetia a uma conduta diferenciada, onde conceitos éticos e morais surgiram norteando e dando um significado mais profundo às Artes Marciais, alicerçada por conceitos de disciplina e hierarquia pertinentes as práticas militares, dando origem assim ao “bushido”, um código de ética e de honra, não escrito, que preconizava a cortezia e o respeito.
Com o fim da era Tokugawa e o início da pacificação do Japão, as técnicas marciais ou Bujutsu começam a perder a sua importância como instrumento de guerra já que a “Classe Samurai” estava extinta e frente aos novos armamentos a maioria das técnicas tornavam-se inúteis. O que fazer então com séculos de cultura marcial?
Através desses séculos de guerra, a prática, o estudo e o desenvolvimento das técnicas marciais explicitavam um poderoso veiculo sócio educativo, além dos óbvios benefícios físicos e mentais. Seria esse o novo caminho, evidenciar a filosofia em lugar à busca pela eficiência letal.
Porem nesse processo para resguardar o patrimônio marcial japonês seriam necessárias adaptações para se adequar aos os novos tempos. Novos objetivos seriam propostos. A meta não poderia ser mais a guerra exclusiva dos Samurais. Através do treino das técnicas se cultivaria corpo, mente e espírito para o auto-desenvolvimento, e as técnicas estavam abertas para toda a sociedade. Logo, muitas técnicas foram adaptadas e algumas até eliminadas. Não seriam mais técnicas mortais, mas caminhos educacionais para o aperfeiçoamento humano que estavam ao alcance de qualquer um.
As artes marciais migrariam então para o “Dô”, que incorporava a elas todo o conteúdo filosófico encontrado no Xintoísmo e no Zen Budismo, o que faria com que elas se tornassem um caminho pelo qual se busca o auto conhecimento e auto aperfeiçoamento, a prática das artes marciais seriam agora um meio de vida, não obstante serem armas de guerra.
Desta feita artes antes conhecidas como Ju Jutsu, Ken Jutsu, Karate Jutsu, tornaram-se os modernos Ju Dô, Ken Dô, Karate Dô,etc…
Contudo o que se seguiu foi apenas uma mudança no foco, para assegurar a sobrevivência das artes marciais no novo mundo, e não uma mudança estrutural como a que é praticada nos dias de hoje. A conotação filosófica dizia respeito única e exclusivamente aos objetivos preconizados a cada uma dessas palavras, Jutsu (eficiência), Dô (busca), não tendo absolutamente influência alguma na prática desta ou daquela modalidade, apenas os fins deveriam ser mudados e não os meios.
Mas os tempos modernos trouxeram as competições e com elas inúmeras mudanças na estrutura ocorreriam, seria necessário confrontar a “mesma técnica” entre seus praticantes à busca de um campeão, o que fatalmente ocasionou uma significativa perda na eficiência, pois o treinamento seria agora direcionado às técnicas previstas dentro de um universo de possíveis ataques e contra-ataques, pertinentes a cada modalidade. Não se treinariam mais as técnicas na totalidade e sim maneiras de alcançarmos “pontos” em competições onde os golpes seriam avaliados de maneira subjetiva.
Não me posiciono aqui contra as competições, mesmo porque fui atleta por mais de quinze anos, porém é fato que as competições nos distanciam cada vez mais da essência das artes marciais, e o que passamos a fazer na maioria das “escolas”, foi treinar um ”jogo” onde se usa quimono.
As artes marciais nos oferecem um universo de possibilidades, são comprovadamente uma eficaz ferramenta educacional e um excelente método de treinamento físico e mental, as competições deveriam apenas ser uma pequena parte desta grandiosa herança de homens magníficos do passado, e não um “Caminho” para longe da verdadeira “Arte”.
O objetivo do Dô é aperfeiçoar o “Ser Humano”, o do Jutsu sobrepujar o “Ser Humano”, e é ai que se esconde o grande segredo das artes marciais. Na busca incessante pela excelência técnica, que nos possibilitaria vencer qualquer combate, cercados por conceitos de honra, disciplina e respeito, nos deparamos com momentos de total solidão e introspecção que nos conduzem a um maior auto conhecimento e conseqüentemente nos criam a possibilidade de melhorarmos como Seres Humanos, e é quando vislumbramos o real “Caminho da Arte”, lutar para vencer a si próprio, nossos medos, nossas fraquezas, nossas limitações.
A busca pela “eficiência” torna o artista marcial obstinado pela “perfeição”, e esta é a união entre o “Jutsu” e o” Dô”, a Arte e o Caminho, que são segmentos e como tal, não devem ser separados. Acredito que um está inserido no contexto do outro, pois “treinar sem buscar a totalidade da arte, é tão equivocado quanto alcançá-la sem entender a responsabilidade que isto requer”.
Hoje após todos estes anos de busca, fiz do Jutsu o meu Dô, da minha arte o meu caminho, onde a filosofia e a eficiência caminham lado a lado.
Oss!
Vinicio Antony